Penacova: Entre o Mondego e as Serras
- Pelos Caminhos
- 10 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Situada numa meia encosta a 290 metros de altitude, com o rio Mondego a serpentear na sua base, Penacova é um concelho do distrito de Coimbra que combina história, natureza e tradições autênticas. Com 13.119 habitantes e uma área de 216,7 km², este território de solos ácidos e paisagens íngremes guarda segredos que vão desde mosteiros medievais a moinhos de vento centenários, passando por uma gastronomia profundamente ligada ao rio e à terra.

História e Património
A primeira menção documental a Penacova remonta ao século X, quando era conhecida por "Vila Cova" e alvo de disputas territoriais com o Mosteiro de Lorvão. Em 936, já surgia em registos devido a um litígio sobre limites, e em 1036, sob domínio muçulmano, foi doada ao Mosteiro da Vacariça para a construção de uma igreja. A sua posição estratégica fez dela um alvo frequente de ataques, culminando na sua repovoação por D. Sancho I, que lhe concedeu foral em 1192 — confirmado em 1219 por D. Afonso II e renovado por D. Manuel I em 1513. Do património destacam-se o Mosteiro de Lorvão, um monumento nacional, fundado no século VI e centro espiritual e cultural durante a Idade Média, com um impressionante claustro e manuscritos medievais. De teor religioso, a Igreja Matriz de Penacova é um edifício dos séculos XVI-XVII, de estilo renascentista, dedicado a Nossa Senhora da Assunção.
Por fim, os moinhos de Gavinhos são uma bela adição à paisagem. Um conjunto de 14 moinhos de vento, um dos maiores núcleos molinológicos do país, e agora conservados no Museu do Moinho Vitorino Nemésio.
Natureza e Paisagens
Penacova é um convite à descoberta de paisagens intocadas. O Miradouro Emygdio da Silva, construído no início do século XX, oferece vistas deslumbrantes sobre o vale do Mondego, enquanto a Livraria do Mondego — uma formação rochosa esculpida pelo rio — é um cenário quase surreal. As praias fluviais do Reconquinho e do Porto do Barco são ideais para banhos no verão, e o Penedo de Castro, uma elevação granítica, atrai caminhantes em busca de panorâmicas únicas.
Tradições e Cultura
O concelho celebra o seu passado com eventos como o Mês dos Míscaros e do Sarrabulho, em novembro, onde 12 restaurantes locais recriam pratos tradicionais. O feriado municipal, a 17 de Julho, homenageia António José de Almeida, o único Presidente da República natural de Penacova. A produção de azeite, os trabalhos em madeira de Lorvão e os antigos moinhos falam de um modo de vida que resiste ao tempo.
Gastronomia
Penacova auto-intitula-se "Capital da Lampreia", mas a sua gastronomia vai muito além deste prato sazonal. Entre novembro e dezembro, o Festival do Míscaros e Sarrabulho celebra dois ícones locais: os míscaros apanhados nos bosques da região e o sarrabulho, um guisado de sangue e carne de porco com tradição ancestral. A chanfana (cabrito cozido em vinho tinto) e os peixes do Mondego, como o barbo e as bogas, completam a mesa.
Nos doces, a herança conventual do Mosteiro de Lorvão perdura em receitas como as trouxas de ovos ou o bolo de São Bernardo. Para uma experiência imersiva, vale a pena visitar o Museu do Moinho Vitorino Nemésio, que homenageia o escritor açoriano com ligações à região e explora a relação entre os moinhos de vento e a cultura local.
Descobrir Penacova
A primavera e o outono são as épocas ideais para visitar Penacova, evitando o calor intenso do verão e aproveitando eventos como o festival gastronómico de inverno. A vila dista apenas 25 km de Coimbra, sendo acessível por estrada nacional (EN110) ou através da linha ferroviária do Vouga (com paragem em Sernada do Vouga). Para os que preferem percursos menos convencionais, o percurso pedestre "Trilho dos Moinhos" liga aldeias montanhosas a antigos moinhos de vento.
Penacova não se entrega facilmente. Exige que o visitante percorra as suas ruas íngremes, pare nos miradouros para contemplar o Mondego, ouça as histórias dos fornos de cal e saboreie os pratos que guardam séculos de memória. É um destino para quem procura um Portugal autêntico, onde a geografia dita o ritmo da vida e o passado dialoga com o presente. Como diria um penacovense, aqui "o bom ar" não é apenas uma metáfora — é uma forma de estar.
